OPINIÃO | MEMÓRIA E CIDADANIA
Lar do Patriota,Talatona – 10 de Fevereiro de 2026
A visita da Direcção do MPLA, chefiada pela sua Vice-Presidente, Mara Quiosa, à residência de Engrácia Cabenha, a “Rainha do 4 de Fevereiro”, não foi apenas um acto de homenagem. Foi, sobretudo, um momento de escuta. Escuta de uma voz antiga, mas firme, que carrega na palavra simples a densidade da história e da luta que fundaram a Independência de Angola.
Engrácia Cabenha falou com o corpo a tremer. Não de medo, como fez questão de sublinhar, mas de alegria. Essa emoção diz mais do que qualquer discurso ensaiado. Revela como o reconhecimento continua a ser uma necessidade sentida por quem “limpou o terreno”, lançou a semente e esperou, durante décadas, para ver os frutos. Quando afirma que “já estamos a colher”, a antiga combatente não fala apenas do presente político, mas da validação simbólica de um percurso feito de sacrifícios, silêncios e resistência.
O seu testemunho desmonta leituras simplistas da luta de libertação nacional. Engrácia Cabenha recorda que começou muito antes de 1961, ainda criança, com apenas 12 anos, já “mergulhada” na clandestinidade. Ao fazê-lo, desafia a cronologia oficial e lembra que a luta não começou num dia específico, nem pertence apenas a uma geração adulta. Foi construída, também, por jovens, mulheres e crianças que arriscaram tudo quando ainda tinham quase nada.
Há, nas suas palavras, uma pedagogia política clara. A metáfora do campo preparado e da semente lançada traduz uma visão estratégica da luta: nada nasce do improviso. A independência, tal como a paz e o desenvolvimento, exigem trabalho continuado, sacrifício e paciência histórica. É uma mensagem que contrasta com a ansiedade do presente e com a tentação de resultados imediatos, sobretudo entre os mais jovens.
Quando se dirige à juventude, Engrácia Cabenha não romantiza o passado. Diz, sem rodeios, que “não foi fácil” e que houve vidas perdidas. Ao mesmo tempo, convoca os jovens a respeitarem a independência, os mais velhos e o valor do trabalho. A sua advertência é dura, mas coerente com quem viveu a violência, a privação e o medo. Para ela, a luta continua, agora sob a forma de responsabilidade cívica e compromisso com o País.
O encontro, inserido na 3.ª edição das Jornadas dos Heróis da Liberdade, promovidas pelo Gabinete para a Cidadania e Sociedade Civil do MPLA, demonstra que a memória não deve ser apenas celebrada, mas escutada e traduzida em acção política. Ao dar centralidade à palavra de Engrácia Cabenha, o MPLA reafirma uma narrativa em que os heróis não são apenas figuras do passado, mas consciências activas que continuam a interpelar o presente.
No final, a antiga combatente disse que não tinha mais palavras, apenas agradecimento. Mas, na verdade, disse tudo. A sua alegria é também um alerta: um país que esquece os seus combatentes corre o risco de perder o sentido da sua própria história. E um país que os escuta, como aconteceu neste dia, renova o compromisso com as raízes da sua independência.
Joaquim Guilherme
Jornalista

