Jornal ÉME - Luanda - 17.09.2026 - Investigador, crítico de arte e cultura, escritor e jornalista aborda o significado do 17 de Setembro, o legado de Agostinho Neto e o papel da cultura na preservação da memória histórica e da identidade angolana.
No âmbito das festividades do 17 de Setembro, Dia do Herói Nacional, o Jornal ÉME entrevistou, quarta-feira (16), em Luanda, o investigador, crítico de arte e cultura, escritor e jornalista Jomo Fortunato, com quem abordou o significado da data, o legado de António Agostinho Neto e o papel da cultura na preservação da memória histórica e da identidade angolana.
“SER JOMO FORTUNATO”
Jornal ÉME: Para começar, gostaríamos que se apresentasse aos leitores do Jornal ÉME e falasse brevemente sobre o seu percurso profissional e a sua ligação às áreas da cultura, literatura e investigação.

Jomo Fortunato (JF): Chamo-me Jomo Francisco Isabel de Carvalho Fortunato, sou natural de Luanda, nasci no dia 28 de Março de 1961. Durante a minha formação frequentei o Instituto Industrial Pedagógico, no Huambo, a Universidade de Aveiro, em Portugal, e a Université Stendhal, em Grenoble, França.
Frequentei, com êxito, a componente lectiva do Mestrado em Literatura Angolana, pela Universidade Agostinho Neto, ISCED, e sou licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante Português-Francês, pela Universidade de Aveiro. Frequentei também seminários sobre Tradição Clássica, em Coimbra, e “Chanson Française”, na Universidade de Aveiro.
Sou professor universitário das cadeiras de Técnicas de Oratória e Língua Portuguesa, Cultura e Literatura Angolana, tendo leccionado nos cursos de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto.
Nas horas livres, sou intérprete, compositor e jornalista. Fui apresentador e criador do programa “Vozes do Semba”, série de documentários sobre a história da Música Popular Angolana, da Televisão Pública de Angola, cujos textos serão publicados num livro de três volumes.
Criei o projecto da Feira do Livro e do Disco de Luanda, que se realizou durante 16 anos, e assinei, às segundas-feiras, textos de investigação sobre música, literatura e teorização de assuntos culturais nas páginas culturais do Jornal de Angola.
Fui editor do suplemento “Vida Cultural”, igualmente do Jornal de Angola, comentarista cultural da Rádio Nacional de Angola e assessor da ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva. Actualmente, sou doutorando em Estudos Culturais pela Universidade de Aveiro.
O SIGNIFICADO DO 17 DE SETEMBRO

Jornal ÉME: Que significado tem o 17 de Setembro para os angolanos, 50 anos depois da Independência Nacional?
JF: O 17 de Setembro, Dia do Herói Nacional, data que assinala o nascimento do fundador do Estado Angolano e poeta maior, António Agostinho Neto, é, quanto a mim, uma data de suma importância histórica, política e simbólica.
A obra do fundador da nação, na sua dimensão política, resulta da assunção do seu “eu cultural”, vilipendiado pela violência e pelos preceitos dos opressores durante a vigência da colonização portuguesa.
Por sua vez, “Sagrada Esperança”, poema épico da angolanidade, que resultou na posterior Independência de Angola, foi um dos bens maiores na história dos angolanos.
Hodiernamente, na busca da angolanidade plena, as novas gerações devem conhecer, com propriedade intelectual, a dimensão política e cultural do primeiro Presidente de Angola.
O LEGADO DE AGOSTINHO NETO

Jornal ÉME: Que importância mantém António Agostinho Neto na construção da identidade e da memória colectiva dos angolanos?
JF: Continuam actuais as causas que levaram António Agostinho Neto e todos os nacionalistas da sua época a enveredar pelo sacrifício da luta pela emancipação cultural e política dos angolanos, em situação colonial.
Agostinho Neto terá colocado “pedras nos alicerces do mundo”, lutando pela construção de identidades e da memória colectiva dos angolanos.
Neste sentido, importa recordar o discurso pronunciado pelo primeiro Presidente de Angola na União dos Escritores Angolanos, a 8 de Janeiro de 1979, por ocasião da tomada de posse dos seus corpos gerentes.
Na verdade, uma leitura atenta deste pronunciamento leva-nos a inferir que os riscos de divisão da sociedade pelas assimetrias no acesso à cultura e a sua vulnerabilidade às crescentes pressões de consumo dos produtos culturais vindos de fora exigem que a promoção da cultura endógena seja fundamental para que os angolanos se desenvolvam livre, integral e solidariamente e afirmem os seus valores identitários no mundo, tal como previu Agostinho Neto.
A OBRA DE NETO NAS ACADEMIAS

Jornal ÉME: Enquanto estudioso da cultura e da literatura angolana, como avalia o legado poético e intelectual de Agostinho Neto para as novas gerações?
JF: “Sagrada Esperança”, obra paradigmática de Agostinho Neto, e todos os seus escritos devem constituir motivo de investigação nas academias.
Diria então que a universidade angolana, no âmbito das ciências humanas, está em condições de reunir material disperso para a criação e institucionalização de uma Licenciatura em Estudos Angolanos, tendo como base de investigação a obra de Agostinho Neto, com saídas profissionais e respectivos mestrados na administração pública, bibliotecas e arquivos, comunicação social, diplomacia, universo editorial, programação e gestão cultural, relações públicas, turismo, investigação e ensino.
Torna-se imperioso estimular os meios académicos a encararem de frente o importante desafio de aperfeiçoar a expressão oral e escrita em línguas nacionais, o estudo da cultura e costumes das comunidades, expressos na riqueza da oralidade angolana, e a inclusão do estudo e análise dos clássicos da literatura angolana, com incidência na obra de Agostinho Neto para o conhecimento das novas gerações.
MENSAGENS PARA A JUVENTUDE

Jornal ÉME: Que mensagens presentes na obra de Agostinho Neto considera particularmente actuais e importantes para os jovens angolanos?
JF: Julgo que os jovens devem celebrar com elevado prestígio o Dia do Herói Nacional, valorizando a sua notável obra literária, enquanto poeta, e a sua prestigiada dimensão política, que culminou com a Independência de Angola.
As mensagens estão explícitas: lutar pelos nossos objectivos, pela liberdade e independência e, mais do que tudo, “sermos nós mesmos”.
CULTURA E MEMÓRIA HISTÓRICA

Jornal ÉME: Que papel deve desempenhar a cultura na preservação da memória histórica e na transmissão dos valores associados ao 17 de Setembro?
JF: Estamos numa época em que a cultura deve estar integrada no processo de desenvolvimento económico e a sua gestão entendida segundo os preceitos da modernidade e dos avanços das modernas tecnologias da esfera comunicacional.
No entanto, não devemos esquecer a dimensão endógena da nossa cultura, promovendo a nossa cosmovisão do mundo.
Penso que é imperioso apostar na formação e capacitação técnica dos criadores e promotores culturais, promover o ensino das artes, empreender o restauro do património edificado, estimular a investigação e recuperar o espólio da cultura imaterial, respeitando, desta forma, as linhas de força do pensamento do Dr. Agostinho Neto.
HISTÓRIA E COMPROMISSO DA JUVENTUDE
Jornal ÉME: Que mensagem gostaria de deixar aos jovens angolanos neste 17 de Setembro, sobretudo sobre a importância de conhecer e valorizar a História do País?
JF: Os nossos jovens devem conhecer com acuidade os grandes períodos da História de Angola, desde o período pré-colonial aos grandes reinos, séculos XIV e XVI, passando pela colonização portuguesa, luta armada de libertação nacional e Independência.
Só assim poderão compreender as grandes contradições do presente.
Cabe às academias realizar encontros de valorização e memória, para que as gerações mais jovens conheçam os grandes feitos dos nossos heróis que marcaram importantes momentos da História de Angola, enaltecer a dimensão histórica do nacionalismo e a intemporalidade do patriotismo angolano, para que compreendam as causas que levaram os angolanos a lutar pela Independência, desde os primórdios da ocupação colonial.
A intemporalidade do patriotismo angolano, no qual Agostinho Neto teve um papel fulcral, remete-nos para a exaltação dos valores da angolanidade em todas as épocas, o que pressupõe, na actualidade, um maior engajamento dos jovens comprometidos com a Pátria, com trabalho, estudo e disciplina.
Texto: Joaquim Guilherme

